No livro Chamada, Marcílio Godoi evoca, com delicadeza e atenção aos detalhes da linguagem, modos de vida que hoje parecem distantes, com ênfase especial na cultura popular do interior de Minas Gerais. Essa cultura, embora enraizada no passado, continua a pulsar na rotina de um homem maduro que há muitos anos vive em uma grande cidade. A nostalgia, nesse contexto, revela sua natureza ambivalente: frequentemente vista como imobilidade — já que prende o indivíduo à sombra de algo perdido —, ela também pode impulsionar transformações, ao permitir que o sentimento de saudade rompa a rigidez do presente. O vínculo com as memórias pessoais, assim, não se resume a uma atitude passiva ou melancólica; pode, ao contrário, nutrir a vida interior, servindo como um gesto de introspecção que reavalia o presente à luz da experiência vivida. Trata-se de um processo cheio de nuances, em que as conexões entre passado e presente são costuradas cuidadosamente, e onde os remendos, quando não ocultos, revelam a natureza humana dessa reconstrução.
Metáforas do tempo: a grande noite
R$9,90Talvez a vida seja curta ou longa demais; e sua linearidade fria comece a se confundir, daí onde era metal e pedra, surge, raízes, ramos e bulbos. Das certezas ao vácuo. Assim se reconfigura aquilo que chamamos de realidade e se reconfigura, formando uma nova teia de sentido. De repente, o que tanto prezávamos se esvai e o sentimento de perda se conforta ao nosso lado.
Qual a novidade?
A obra de Pedro da Mota Pereira, Metáforas do tempo: a grande noite, está prenhe dessas questões, porém não pretende respondê-las. Por vezes as amplificam até torná-las insuportáveis. Cumpre assim um dos destinos da arte: ir contra a reificação humana.
Num de seus poemas, o autor nos oferece um olhar privilegiado sobre trabalhadores de um porto qualquer, congela o tempo, e vemos gotas d’agua evaporando (em suas palavras: …se esvaindo). Imediatamente retornamos desta perspectiva de olhar onisciente e caímos… (como o tombo do anjo divino?), sobre nossa própria vida. O eu lírico, assim nos convida a nos dar outra chance.
Dotado de humanismo marcante, Metáforas do tempo: a grande noite, é orgânico – ainda que digital – e tem grandes requisitos para se tornar livro de cabeceira de seus leitores.


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