No livro Chamada, Marcílio Godoi evoca, com delicadeza e atenção aos detalhes da linguagem, modos de vida que hoje parecem distantes, com ênfase especial na cultura popular do interior de Minas Gerais. Essa cultura, embora enraizada no passado, continua a pulsar na rotina de um homem maduro que há muitos anos vive em uma grande cidade. A nostalgia, nesse contexto, revela sua natureza ambivalente: frequentemente vista como imobilidade — já que prende o indivíduo à sombra de algo perdido —, ela também pode impulsionar transformações, ao permitir que o sentimento de saudade rompa a rigidez do presente. O vínculo com as memórias pessoais, assim, não se resume a uma atitude passiva ou melancólica; pode, ao contrário, nutrir a vida interior, servindo como um gesto de introspecção que reavalia o presente à luz da experiência vivida. Trata-se de um processo cheio de nuances, em que as conexões entre passado e presente são costuradas cuidadosamente, e onde os remendos, quando não ocultos, revelam a natureza humana dessa reconstrução.
Poemas 1999-2014
R$19,90Poemas 1999-2014 reúne os seis livros de poesia de Tarso de Melo (Santo André, 1976) e poemas esparsos mais recentes, marcando os 15 anos da edição do primeiro de seus livros, “A lapso”, de 1999, que foi seguido por “Carbono” (2002), “Planos de fuga e outros poemas” (2005), “Lugar algum” (2007), “Exames de rotina” (2008) e “Caderno inquieto” (2012), todos lançados originalmente em alguns dos mais prestigiados catálogos da poesia brasileira contemporânea. Nas palavras do poeta e crítico Guilherme Gontijo Flores, a obra de Tarso de Melo, “além de impressionar pelos poemas, o que mais chama atenção – a meu ver – é o percurso. Tanto o percurso interno dos livros, onde estão cada um dos poemas, quanto o percurso maior entre os livros (…). Esse percurso é marcado por uma crescente concretude (nada de concretismo) da linguagem e dos temas – Tarso faz parte de uma tradição de embate com o espaço urbano, de confrontamento direto com o presente, em que a poesia não serve de subterfúgio, escapatória, ou salvação. (…) É nesse mundo em conflito, permeado de dor e do desejo de poesia, que sua poesia caminha”.


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