Após um divórcio que o reduz a uma vida mínima, um professor se instala em uma quitinete no centro da cidade e tenta reorganizar sua existência entre livros, memórias e ruínas pessoais. Em Derrocada, Tiago Ferro constrói um romance intenso e perturbador sobre uma consciência em crise, onde o pensamento não consola amplifica o mal-estar. Entre referências literárias e reflexões sobre política, universidade e vida contemporânea, o narrador se move em espirais de ideias que revelam um mundo já esgotado de sentido. Nesse movimento, ecoa a influência de Thomas Bernhard, mas deslocada: aqui, a repetição não é apenas crítica corrosiva, e sim sintoma de uma deterioração que já se consumou, sem promessa de reversão. Mas é a irrupção fragmentária de um passado familiar violento que desestabiliza ainda mais esse equilíbrio precário, infiltrando o mal não como exceção, mas como herança. À medida que o íntimo e o histórico se confundem, Derrocada expõe as tensões entre lucidez e paralisia, crítica e impotência, pensamento e ação. O pequeno espaço de um apartamento torna-se o cenário de uma investigação radical sobre a experiência contemporânea onde a queda pode ser também uma forma de ver com clareza. Um romance literário denso e provocador sobre os limites da consciência, da memória e da própria ideia de sentido.
Clichê
R$11,90O sinal para os pedestres se abre. As pessoas que esperam nas calçadas iniciam então a travessia. Em meio àquela multidão, duas delas cruzam os olhares, julgam se conhecer, mas continuam seu percurso levando apenas a dúvida consigo.
Esta foi a situação escolhida pelo autor Samir Mesquita para o desafio de Noemi Jaffe, curadora do Selo JOTA: escolher uma história banal e escrevê-la das mais diversas formas e pontos de vista. Em 40 diferentes versões desta cena tão repetida no cinema e comum em nossas vidas, o autor explora formas como prosa, poesia, diálogo, reportagem, depoimento, entrevista e uma quase epopeia, e apresenta personagens como um aluno em um curso de roteiro, um filho que julga reconhecer o torturador do pai, ou um pai que desconfia ter reconhecido uma filha abandonada, um trabalhador refém de uma rotina, uma mulher em terapia, uma bailarina russa, entre outros tantos. Clichê é assim um livro que busca na repetição uma forma de explorar o novo. E que tenta fugir a cada página da palavra que lhe dá título. A ideia original do Selo JOTA partiu do pioneiro e consagrado Oulipo, grupo de escritores entre os quais se incluíam Italo Calvino, Raymond Queneau e Georges Perec. Todos os livros do JOTA partem de um desafio, de restrições narrativas que, por paradoxal que pareça, atuam de maneira a incrementar o texto ficcional.

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